top of page
Buscar

Abstração Metonímica

9 de set.
2 min de leitura

FRAGMENTO, PRESENÇA E RELAÇÕES


Uma proposição contemporânea para pensar além da oposição entre figuração e abstração nas Américas.


A Abstração Metonímica, propõe compreender imagens não prioritariamente pela oposição entre figuração e abstração, mas pelas relações através das quais fragmentos, vestígios, matérias, atributos, ritmos e intervalos fazem comparecer realidades que não precisam estar integralmente representadas. Aplicada comparativamente à história das artes nas Américas, essa formulação não pretende atribuir retrospectivamente uma única linguagem a povos distintos, mas investigar modos de operação visual que podem desafiar categorias historiográficas derivadas exclusivamente da experiência artística europeia.


O problema da palavra “abstração”


Começamos pelo problema historiográfico. A história da arte ensinada de maneira convencional frequentemente associa a emergência da abstração à modernidade europeia dos séculos XIX e XX. Mas formas não naturalistas, relações geométricas, ritmos, fragmentações, reduções e imagens cuja eficácia não depende da reprodução integral de um objeto são muito anteriores e aparecem em inúmeros sistemas visuais americanos.


À primeira vista, o fragmento de túnica Wari conservado pelo Metropolitan Museum of Art parece uma tempestade geométrica. Quadrados, diagonais, faixas e cores comprimem o olhar. Só depois surgem figuras: personagens de perfil, felinos, asas, garras, bastões. Nada está inteiro como num retrato. Ainda assim, algo comparece.


O objeto, tecido entre os séculos VII e IX no atual Peru, oferece uma entrada precisa para o problema. Seus elementos foram distorcidos, comprimidos, expandidos e girados até o limite da legibilidade; apesar disso, continuam relacionados ao repertório iconográfico Wari. A imagem não escolhe entre figura e abstração. Trabalha na tensão entre ambas (Metropolitan Museum of Art, s.d.-a).


É comum que narrativas da arte moderna apresentem a abstração como conquista europeia: primeiro, a perspectiva começa a se desfazer; depois, a cor se emancipa; o cubismo fragmenta; por fim, a figura desaparece. Essa história descreve transformações decisivas ocorridas entre o fim do século XIX e o início do XX. O erro aparece quando uma genealogia regional se converte em medida universal da imaginação humana.


Muito antes das vanguardas europeias, sociedades das Américas organizavam imagens por geometrização, repetição, modulação, simetria, condensação, alternância e relações materiais que não dependiam da reprodução naturalista. Isso não faz dessas sociedades “modernistas antes do Modernismo”. Tal elogio aparente ainda subordina produções mais antigas a uma categoria europeia posterior.


A exposição Weaving Abstraction in Ancient and Modern Art, realizada pelo Metropolitan Museum of Art em 2024, colocou mais de cinquenta obras em diálogo: têxteis andinos, do primeiro milênio a.C. ao século XVI, e trabalhos de Anni Albers, Sheila Hicks, Lenore Tawney e Olga de Amaral. A mostra destacou como a grade criada por urdidura e trama favorece investigações nas quais estrutura e desenho se tornam inseparáveis (Candela; Pillsbury, 2023; Metropolitan Museum of Art, 2024).


O encontro é produtivo quando não apaga a distância histórica. Um tecido andino não precisa receber cidadania no Modernismo para demonstrar inteligência abstrativa. É melhor formular outra pergunta: que relações entre forma, matéria, corpo, território, memória e presença foram obscurecidas quando diferentes sistemas visuais passaram a ser classificados apenas como figuração, abstração, decoração ou ornamento?


É nesse intervalo que a Abstração Metonímica se instala.


 
 
 

Comentários


bottom of page